| Junho de 2008 |
Informativo Virtual da ACCESS Informática
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No pelotão dos emergentes |
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Em países como Brasil, China e Índia, os jornais dão
um inesperado sinal de vigor – e se afastam da imagem de decadentes.
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No livro The Vanishing Newspaper
(traduzido no Brasil como Os Jornais Podem Desaparecer?,
editora Contexto), o jornalista americano Philip Meyer faz
previsões apocalípticas sobre o destino dos jornais
de seu país: “Em 2043, o jornal morrerá nos Estados
Unidos, quando o último leitor, cansado, abandonar a última
edição amarrotada”. O vaticínio do veterano
repórter do grupo Knight Ridder, que controla mais de 30 jornais
espalhados pelo país, pode ser exagerado, pode até nunca
se concretizar. Mas não parece absurdo diante da contínua
queda na circulação e na publicidade dos maiores jornais
dos Estados Unidos. Em 2007, houve redução de 3,5% na
circulação dos periódicos americanos. Dois dos
maiores e mais prestigiados diários do país, The
New York Times e Los Angeles Times, perderam, em média,
5% de suas tiragens. A receita publicitária do setor enfrentou
no ano passado a maior queda da história, o equivalente a 4
bilhões de dólares, ou 10% do total. A principal causa
desse fenômeno é a concorrência com a internet,
com mais de 220 milhões de usuários no mercado americano,
segundo a empresa de pesquisas Nielsen/NetRatings. Enquanto os jornais
viram sua participação encolher no bolo publicitário,
os anúncios em internet cresceram 19%, o equivalente a 2,2
bilhões de dólares, apenas em 2007. “Não
sei se continuaremos imprimindo o The New York Times em cinco
anos”, disse em janeiro Arthur Sulzberger Jr., presidente do
jornal mais influente do mundo.
Em um cenário tão dramático, era compreensível
que previsões catastróficas também fossem traçadas
para outros mercados e que se decretasse a decadência dos jornais
como uma tendência irreversível em escala global. No
entanto, as estatísticas do setor mostram uma situação
diferente, particularmente em nações emergentes, como
Índia, China e Brasil. Nesses três países, os
jornais têm apresentado uma vitalidade já esquecida no
mercado americano. Nos últimos cinco anos, a circulação
de diários na China aumentou 16% e o faturamento em publicidade
58%. Na Índia, no mesmo período, a circulação
cresceu 53% e a publicidade 85%. No Brasil, os números não
são tão espetaculares, mas ainda assim expressivos para
um setor que apresentou forte queda na circulação há
cinco anos. Em 2007, a circulação paga de jornais aumentou
12% em relação a 2006, quase o dobro do crescimento
resgistrado no ano anterior – a maior alta dos últimos
15 anos. E o investimento publicitário nos jornais brasileiros
cresceu quase 22% no primeiro trimestre de 2008 em comparação
ao mesmo período do ano passado. Na televisão aberta,
meio de comunicação que concentra 65% dos investimentos
em publicidade, houve crescimento de 12,6%, ficando abaixo da média
do mercado, que cravou 15%.
Por trás do crescimento da indústria de jornais em países
como Brasil, Índia e China está o aumento do poder aquisitivo
de sua população – e a inclusão de um novo
tipo de leitor. Ainda que a internet cresça rapidamente (só
no Brasil, o número de usuários aumentou 27% e passou
de 35,3 milhões para 45 milhões entre 2006 e 2007),
os jornais vêm conseguindo atrair leitores das classes C e D,
a grande massa de novos consumidores que impulsionam a economia brasileira.
Assim como querem comprar o primeiro carro, uma TV maior ou um celular,
as classes C e D desejam ter acesso a um tipo de informação
que no passado não tinham condições de pagar.
E, assim como ocorre em outros mercados de consumo, a tendência
é que esses consumidores sejam iniciados pelas publicações
mais acessíveis. No Brasil, um estudo do Instituto Verificador
de Circulação (IVC) dá uma idéia desse
movimento. Em 2000, dos 20 maiores jornais do país, cinco eram
populares e representavam apenas 30% da circulação.
No ano passado, dos 20 maiores, nove eram populares e a circulação
deles, reunida, já correspondia a mais de 45% do total. O Jornal
SuperNotícia, de Belo Horizonte, é o exemplo
mais significativo desse fenômeno. Criado em 2002, com tiragem
diária inicial de 6.000 exemplares, o SuperNotícia
dobrou de tamanho em 2005. No ano seguinte, a circulação
decuplicou, atingindo 135.000 exemplares, e em 2007 alcançou
300.000 – o que o tornou o jornal mais vendido do Brasil, à
frente da Folha de S. Paulo. A posição foi mantida por
dois meses e, atualmente, o SuperNotícia vende em
média 240.000 exemplares, a segunda maior avulsa no país.
A fórmula do jornal é moldada aos emergentes leitores
da classe C: apelo popular, preço baixo (25 centavos),distribuição
de brindes e uma agressiva estrutura de vendas na capital mineira.
“Há um potencial grande de crescimento a partir da estabilidade
econômica”, diz Antônio Athayde, diretor executivo
da Associação Nacional de Jornais (ANJ).
A entrada das classes C e D na base de leitores dos jornais aumentou,
de forma considerável, a quantidade de anúncios publicados
por determinados setores – nos veículos populares e também
nos tradicionais. As operadoras de telefonia, por exemplo, aumentaram
as verbas publicitárias destinadas a jornais em 82%, passando
de 228 milhões de reais em 2006 para 416 milhões em
2007. O setor financeiro e de seguros, embalado pelo aumento na oferta
de crédito à população de baixa renda,
elevou quase 30% os investimentos em publicidade em jornais. E as
verbas da indústria automobilística, seguindo o mesmo
raciocínio, cresceram 26%. “A mídia impressa é
decisiva para influenciar a compra, uma vez que é nos anúncios
de jornais e revistas que o consumidor se informa sobre os detalhes
do produto e da forma de pagamento, enquanto o comercial de TV serve
mais para despertar a atenção sobre o produto”,
diz João Batista Ciaco, diretor de marketing de relacionamento
e publicidade da Fiat. Mas nenhum setor tem apostado tão fortemente
em jornais quanto o imobiliário. As incorporadoras e as imobiliárias
investiram no ano passado cerca de 2,6 bilhões de reais em
anúncios, 800 milhões a mais do que em 2006. “Existe
até uma competição pelos melhores espaços
nos jornais, as chamadas páginas nobres nos cadernos mais importantes”,
diz Ubirajara Spessotto, diretor da Cyrela, uma das maiores incorporadoras
do país. “As incorporadoras imobiliárias começaram
a perder espaço para as montadoras de carros, que antes ficavam
restritas aos suplementos de veículos. Tivemos de adotar uma
postura mais agressiva e aumentar os investimentos para garantir esse
espaço.”
O bom momento do mercado brasileiro de jornais, em circulação
e em receita publicitária, atraiu grupos estrangeiros, como
o sueco Metro International e o português Cofina,
especializados em jornais de distribuição gratuita.
Associados a empresários locais, eles lançaram, em 2006,
o Metro e o Destak, respectivamente. Ambos são
distribuídos nas ruas de São Paulo, com tiragem média
de 150.000 exemplares cada um. Metro e Destak têm
formato tablóide e são dirigidos às classes A
e B, com textos curtos e diagramação que valoriza fotos,
próprios para ser lidos no trânsito ou nos deslocamentos
pela cidade – as edições são planejadas
para ser lidas em, no máximo, 20 minutos. O modelo de negócios
desses jornais é ancorado unicamente em publicidade. “Nossos
anúncios são mais caros, mas isso é parte da
estratégia, uma vez que nosso público também
é diferenciado”, diz Adriano Santin, executivo de marketing
de Metro. Assim como o Destak, o Metro
veio para o Brasil pelas mesmas razões que têm atraído
o interesse de empresas de outros setores. “A Metro International
percebeu que, com o aquecimento da economia, havia um nicho a ser
explorado”, diz Santin. O grupo sueco prepara-se agora para
editar o Metro em outras grandes cidades das regiões
Sul e Sudeste do Brasil. Talvez um sinal de que a profecia de Philip
Meyer e as dúvidas de Arthur Sulzberger Jr. não se aplicam
a países emergentes como o Brasil. |
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| Fonte: Revista Exame – 4 de junho de 2008.
P. 76 a 78. Por Paula Barcellos. |
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